O Corpo Fala
O corpo para a psicanálise é uma construção, não é algo pronto. Entender isso é partir da percepção que o próprio bebê, apesar de ter um corpo físico, não faz reconhecimento do mesmo de início. O bebê precisa passar por processos que o levará ao reconhecimento de si e de seu corpo, dessa imagem própria, inclusive para poder realizar a diferenciação entre seu corpo e o mundo externo. Lacan denomina este momento de Estádio do Espelho, sendo este a constituição do Eu enquanto unidade.
Voltando ao inicio da psicanálise, Freud, que era neurologista, em sua vivência com a medicina acompanhou algumas pacientes que apresentavam paralisias sem uma causa orgânica, foi no acompanhamento destas que se pôde perceber que os sintomas vinham de traumas e que o corpo destas pacientes se apresentava como um cenário para uma representação. Assim ele entendeu que algo acontecia para além do que a medicina lhe ensinava, algo não era possível de explicação isoladamente pelo corpo e que os sintomas apresentados por estas pacientes eram de um sentido simbólico que “encarnavam” em partes do corpo. Assim se compreende que a psicanálise olha o corpo como o portador de um saber, que pode camuflar em forma de sintomas conversivos.
Para a compreensão melhor de corpo em psicanálise também é importante a compreensão da pulsão, essa energia que circula entre mente e corpo, e que não apenas está construindo comunicação constante entre ambos quanto está interferindo um no outro. Consequentemente, adoecimentos do corpo podem interferir e produzir afetos da mesma forma que o psiquismo, quando não encontra outro formato de saída, direciona seu afeto ao corpo, provocando expressões, como adoecimentos físicos que poderiam ser exemplificados nas mais variadas partes ou órgãos desse corpo.
Freud também em seus textos apresenta a interpretação de que o corpo é uma das fontes do sofrimento humano. No adoecimento é o corpo que dói, trás a lembrança da finitude humana. A lembrança e reafirmação da existência desse corpo a partir da presença da dor fazem com que todo o foco do sujeito volte-se apenas para si mesmo e seu próprio adoecimento. É no corpo que o sintoma irá se apresentar, e é a partir do corpo que se poderá saber algo mais de determinados sofrimentos, sendo assim o corpo pode ser visto como a superfície de inscrição, onde se recebe a marca.
No entanto, essa visão como inscrição no corpo não é somente do sentido doloroso, podendo citar Lacan, este apresenta em seus estudos a base do inconsciente como linguagem, e pensar desta forma é perceber que isso só pode ser concebido a partir do corpo, pois o corpo é o lugar da dor e sofrimento, mas também é lugar da voz, dos prazeres, da memória, etc., ou seja, o corpo não é somente sofrimento, está muito além disso.
Desta forma, a clínica psicanalítica fará ampla observação e retorno ao corpo, e o atendimento em psicanálise visará o lugar de escuta deste corpo e todos os seus sintomas, dando espaço para o sujeito encontrar e/ou criar as próprias saídas para o que está ocorrendo.